Pão Diário

segunda-feira, 15 de abril de 2013


Organização social indígena

Extraído  Série Vias dos Saberes no 1.


Os povos indígenas no Brasil conformam uma enorme diversidade
sociocultural e étnica. São 222 povos étnica e socioculturalmente diferenciados
que falam 180 línguas distintas. Ë verdade que essa diversidade
é o resultado de uma drástica redução ao longo da história de
colonização, uma vez que já havia além de 1.500 povos falando mais de
1.000 línguas indígenas distintas quando Pedro Alvarez Cabral chegou
ao Brasil em 1500.
Os lingüistas organizam as línguas indígenas do Brasil em três troncos:
Tupi, Macro-Jê e Aruak. Mas existem algumas línguas que não se
enquadram em nenhum desses troncos lingüísticos.
Cada povo indígena possui um modo próprio de organizar suas relações
sociais, políticas e econômicas – as internas ao povo e aquelas
com outros povos com os quais mantém contato. Em geral, a base da
organização social de um povo indígena é a família extensa, entendida
como uma unidade social articulada em torno de um patriarca ou de
uma matriarca por meio de relações de parentesco ou afinidade política
ou econômica. São denominadas famílias extensas por aglutinarem um
número de pessoas e de famílias muito maior que uma família tradicional
européia. Uma família extensa indígena geralmente reúne a família
do patriarca ou da matriarca, as famílias dos filhos, dos genros, das noras,
dos cunhados e outras famílias afins que se filiam à grande família
por interesses específicos.
Toda organização social, cultural e econômica de um povo indígena
está relacionada a uma concepção de mundo e de vida, isto é, a uma
determinada cosmologia organizada e expressa por meio dos mitos
e dos ritos. As mitologias e os conhecimentos tradicionais acerca do
mundo natural e sobrenatural orientam a vida social, os casamentos,
o uso de extratos vegetais, minerais ou animais na cura de doenças,
além de muitos hábitos cotidianos. É a partir dessas orientações cosmológicas
que acontecem a organização dos casamentos exogâmicos
(casamentos cujos cônjuges pertencem a grupos étnicos ou sibs diferentes)
ou endogâmicos (casamentos cujos cônjuges pertencem ao
mesmo grupo étnico ou sib) e as divisões hierárquicas entre grupos
(sibs, fratrias ou tribos), que implicam o direito de ocupação de determinados
territórios específicos e o acesso a recursos naturais, bem
como o controle do poder político.
A organização política de um povo indígena geralmente está baseada
na organização social feita através de grupos sociais hierárquicos
denominados sibs, fratrias ou tribos. Fratria ou sib é uma espécie de
linhagem social dentro do grupo étnico, que está relacionada direta ou
indiretamente à origem do povo ou à origem do mundo, quando os grupos
humanos receberam as condições e os meios de sobrevivência. Os
sibs ou fratrias são identificados por nomes de animais, de plantas ou de
constelações estelares que, por si só, já indicam a posição de hierarquia
na organização sociopolítica e econômica do povo. Da mesma maneira,
os nomes dados aos indivíduos indígenas estão diretamente relacionados
ao sib ou à fratria a que pertencem, ou seja, à posição hierárquica
que cada indivíduo ocupa dentro do grupo.
Essa diversidade cultural dos povos indígenas demonstra a multiplicidade
de povos e das suas relações com o meio ambiente, com o
meio mítico religioso e a variação de tipos de organizações sociais, políticas
e econômicas, de produção de material e de hábitos cotidianos
de vida. Pode-se afirmar que os modos de vida dos povos indígenas
variam de povo para povo conforme o tipo de relações que é estabelecido
com o meio natural e o sobrenatural. Em razão disso, os lugares
e os estilos de habitação variam de povo para povo. Alguns escolhem
para morar as margens dos rios, outros, o interior da floresta e outros
mais, as montanhas. Alguns deles vivem em grandes malocas comunitárias,
outros habitam aldeias ovais compostas por várias casas ou
pequenas malocas, ou ainda, casas separadas e dispersas ao longo dos
rios e das florestas. Do mesmo modo, alguns praticam preferencial
mente a pesca, outros, a caça e outros ainda, a agricultura ou a coleta
de frutos silvestres.
Os tipos e as condições em que as relações acontecem com o meio
natural e sobrenatural também influenciam a qualidade de vida. Povos
que vivem em terras mais extensas e abundantes em recursos naturais
têm a possibilidade de uma vida mais rica, baseada em valores como a
solidariedade, a reciprocidade e a generosidade. Ao passo que os povos
que ocupam terras reduzidas e com recursos naturais escassos vivem
conflitos internos maiores, o que dificulta muitas vezes as práticas tradicionais
de reciprocidade e o espírito comunitário e coletivo.
As relações sociais mais fortes entre os povos indígenas são as de
parentesco e de alianças. Como já vimos, as relações de parentesco
estendem-se ao escopo de uma família extensa e são a base de toda
a estrutura social de um povo. As relações de alianças estabelecemse
a partir de necessidades estratégicas comuns entre os aliados e são
muitas vezes temporais. Deste modo, as alianças constituem a base de
interesses comuns compartilhados e recíprocos, uma espécie de troca.
Esses interesses freqüentemente estão relacionados à troca de mulheres,
ao compartilhamento de espaços territoriais privilegiados em recursos
naturais, aos interesses comerciais (trocas) ou às alianças de guerras
contra inimigos comuns.
São essas relações de parentesco e as alianças que dinamizam e organizam
as festas, as cerimônias, os rituais, as pescas ou as caças coletivas,
os trabalhos conjuntos de roça e a produção, o consumo e a distribuição
de bens e serviços, principalmente de alimentos. As festas, por exemplo,
são nada mais do que a comemoração de vitórias e conquistas, e podem
advir de uma boa coleta ou servem para festejar o sucesso dos pajés que
impediram qualquer castigo ou mal-feito dos inimigos. A participação
nas festas e nas cerimônias revela explicitamente as fronteiras das relações
de amizade ou de inimizade entre grupos ou povos, sempre com
uma lógica de reciprocidade, ou seja: aos amigos, cabe a reciprocidade
da amizade; aos inimigos, a reciprocidade da inimizade e a conseqüente
vingança. São as relações de alianças e de inimizades que constituem
o equilíbrio social dos grupos e dos povos, uma espécie de contrato
social. Sem elas, o mundo indígena seria um caos, ou melhor ainda, o
mundo da lei do mais forte.
De forma sucinta podemos afirmar que a base da complexa organização
social indígena está centrada nas relações de parentesco e
nas alianças políticas e econômicas que cada povo ou grupo familiar
estabelece. Os grupos de parentesco e de aliados formam potencial e
concretamente os grupos de organização que se constituem em verdadeiros
grupos de produção de bens e serviços. A distribuição e o
consumo de bens são orientados a partir de tais grupos. Quando um
caçador consegue uma caça, sua obrigação é distribuí-la em primeiro
lugar entre os membros da sua família extensa e somente satisfeita
essa obrigação é que ele poderá atender a outros membros ou mesmo
à comunidade inteira.



Identidade Indígena: o orgulho de ser índio
Extraído: Série Vias dos Saberes no 1

O reconhecimento da cidadania indígena brasileira e, conseqüentemente,
a valorização das culturas indígenas possibilitaram uma nova
consciência étnica dos povos indígenas do Brasil. Ser índio transformou-
se em sinônimo de orgulho indenitário. Ser índio passou de uma
generalidade social para uma expressão sociocultural importante do
país. Ser índio não está mais associado a um estágio de vida, mas à.
qualidade, à riqueza e à espiritualidade de vida. Ser tratado como
sujeito de direito na sociedade é um marco na história indígena brasileira,
propulsor de muitas conquistas políticas, culturais, econômicas
e sociais.
Os povos indígenas do Brasil vivem atualmente um momento especial
de sua história no período pós-colonização. Após 500 anos de massacre,
escravidão, dominação e repressão cultural, hoje respiram um
ar menos repressivo, o suficiente para que, de norte a sul do país, eles
possam reiniciar e retomar seus projetos sociais étnicos e identitários.
Culturas e tradições estão sendo resgatadas, revalorizadas e revividas.
Terras tradicionais estão sendo reivindicadas, desapropriadas ou reocupadas.
pelos verdadeiros donos originários. Línguas vêm sendo reaprendidas
e praticadas na aldeia, na escola e nas cidades. Rituais e cerimônias
tradicionais há muito tempo não praticados estão voltando a fazer
parte da vida cotidiana dos povos indígenas nas aldeias ou nas grandes
cidades brasileiras.
Isto é um retorno ao passado ou puro saudosismo? De modo algum.
Isto é identidade indígena e orgulho de ser índio. É ser o que se é, como
acontece com todas as sociedades humanas em condições normais de
vida. Passado um longo período institucionalizado de repressão (pois
ainda é forte no Brasil a repressão cultural não-institucionalizada, não oficial,
percebida, por exemplo, na implementação das políticas públicas
e no reconhecimento pleno dos direitos garantidos, como o direito
à terra, à educação e à saúde adequada), as novas gerações de jovens
indígenas parecem carentes de uma identidade que os identifique e lhes
garanta um espaço social e indenitário em um mundo cada vez mais
global e, ao mesmo tempo, profundamente segmentário no que diz respeito
à cultura, à ancestralidade, à origem étnica, a partir das quais os
direitos econômicos, sociais, culturais contemporâneos se articulam e
se fundamentam.
É notório o interesse das novas gerações indígenas, mais do que
aquele dos velhos anciãos, pela recuperação do valor e do significado da
identidade indígena, como afirmou um índio bororo certa vez: “É desejo
de todo índio entrar e fazer parte da modernidade e seu passaporte primordial
é a sua tradição”. Parece ser esta a razão principal da revalorização da identidade indígena. Entrar e fazer parte da modernidade não
significa abdicar de sua origem nem de suas tradições e modos de vida
próprios, mas de uma interação consciente com outras culturas que leve
à valorização de si mesmo. Para os jovens indígenas, não é possível viver
a modernidade sem uma referência identitária, já que permaneceria o
vazio interior diante da vida frenética aparentemente homogeneizadora
e globalizadora, mas na qual subjazem profundas contradições, como a
das identidades individuais e coletivas.
As gerações indígenas mais antigas parecem oferecer maior resistência
à reafirmação das identidades étnicas, em grande medida ainda influenciadas
pelas seqüelas do período colonial repressivo. E não é por
menos. Eles foram forçados a abdicar de suas culturas, tradições, de
seus valores e saberes porque eram considerados inferiores, satânicos e
bárbaros (ou seja, eram considerados como sinônimo de atraso, o que
os impedia de entrar no mundo civilizado, moderno e desenvolvido) e
para poderem se tornar gente civilizada, moderna e desenvolvida. Eles
foram obrigados a acreditar que a única saída possível para o futuro de
seus filhos era esquecer suas tradições e mergulhar no mundo não-indígena
sem olhar para trás. Mas mesmo assim, muitos velhos sábios e anciãos
indígenas estão superando esse trauma psicológico, e embarcando
no caminho que está sendo traçado e construído pelas gerações mais
jovens, onde prevalece a recuperação da auto-estima, da autonomia e
da dignidade histórica, tendo como base a reafirmação da identidade
étnica e do orgulho de ser índio.
É importante destacar que quando estamos falando de identidade
indígena não estamos dizendo que exista uma identidade indígena genérica
de fato, estamos falando de uma identidade política simbólica
que articula, visibiliza e acentua as identidades étnicas de fato, ou seja,
as que são específicas, como a identidade baniwa, a guarani, a terena,
a yanomami, e assim por diante. De fato não existe um índio genérico,
como já dissemos no início deste livro. Talvez exista no imaginário
popular, fruto do preconceito de que índio é tudo igual, servindo para
diminuir o valor e a riqueza da diversidade cultural dos povos nativos
e originários da América continental. Os povos indígenas são grupos
étnicos diversos e diferenciados, da mesma forma que os povos europeus
(alemão, italiano, francês, holandês) são diferentes entre si. Seria
ofensa dizer que o alemão é igual ao português, da mesma maneira que
é ofensa dizer que o povo Yanomami é igual ao Guarani.
Os povos indígenas, ao longo dos 500 anos de colonização, foram
obrigados, por força da repressão física e cultural, a reprimir e a negar
suas culturas e identidades como forma de sobrevivência diante da
sociedade colonial que lhes negava qualquer direito e possibilidade de
vida própria. Os índios não tinham escolha: ou eram exterminados
fisicamente ou deveriam ser extintos por força do chamado processo
forçado de integração e assimilação à sociedade nacional. Os índios
que sobrevivessem às guerras provocadas e aos massacres planejados e
executados deveriam compulsoriamente ser forçados a abdicar de seus
modos de vida para viverem iguais aos brancos. No fundo, era obrigá-
los a abandonarem suas terras, abrindo caminho para a expansão
das fronteiras agrícolas do país. O objetivo, portanto, não era tanto
cultural ou racial, mas sobretudo econômico, guiando toda a política
e as práticas adotadas pelos colonizadores. É este o ressentimento das
gerações indígenas mais antigas, ou mesmo das gerações mais novas
que ainda vivem sob essa repressão, como nas regiões Nordeste e Centro-
Oeste do Brasil.
A dinâmica e a intensidade da relação com a identidade variam de
povo para povo e de região para região, de acordo com o processo
histórico de contato vivido. Na Amazônia, por exemplo, onde o contato
com os colonizadores brancos aconteceu mais recentemente, muitos
povos indígenas continuam conservando integralmente suas culturas e
tradições, como a terra, a língua e os rituais das cerimônias. Para esses
povos, a prioridade é fortalecer a identidade e promover a valorização
e a continuidade de suas culturas, de suas tradições e de seus saberes.
Até pouco tempo pairava na cabeça de muitos brasileiros serem esses
os “verdadeiros índios”, porque falavam suas línguas, viviam nas selvas
nus e pintados e praticavam danças exóticas estranhas às danças
do mundo não-indígena. Atualmente, algumas poucas pessoas menos
informadas e esclarecidas ainda pensam assim, fruto da imagem pejorativa e preconceituosa de índio veiculada ao longo de séculos pela escola e pelos meios de comunicação de massa.
O Nordeste é uma região emblemática para que se entendam hoje os meandros do que foi o processo colonizador enfrentado pelos povos
indígenas. Por estar localizada ao longo do litoral brasileiro, a região
foi alvo primeiro da ocupação colonial pelos portugueses. Essa ocupação
violenta resultou em profundas perdas territoriais e na submissão,
por absoluta necessidade de sobrevivência, aos poderes econômicos
coloniais, marca dos diversos povos da região, como os Xucuru, os
Fulniô, os Cariri-Xocó, os Tuxá, os Aticum, os Tapeba, os Potiguara,
entre outros. As línguas nativas foram substituídas pelo português
e o modo de vida desses povos pouco se distingue dos camponeses
não-índios. As áreas que ocupam dificilmente possibilitam uma vida
autônoma de produção e reprodução de suas culturas, tradições e valores
para as quais necessitariam de um resgate e de uma reorganização
social. No entanto, a identidade indígena entre os povos da região
é marcada por rituais específicos, como as festas do Toré (dos Tuxá) e
o Uricuri (dos Fulniô), nos quais é proibida a presença de não-índios,
como marca da fronteira identitária étnica. Neste sentido, a identidade
indígena, negada e escondida historicamente como estratégia de
sobrevivência, é atualmente reafirmada e muitas vezes recriada por
esses povos.
O processo de reafirmação da identidade indígena e o sentimento
de orgulho de ser índio estão ajudando a recuperar gradativamente a
auto-estima indígena perdida ao longo dos anos de repressão colonizadora.
Os dois sentimentos caros aos povos indígenas estão possibilitando
a retomada de atitudes e de comportamentos mais positivos
entre eles, diante de um horizonte sociocultural mais promissor e esperançoso.
As atuais gerações indígenas nascem, crescem e vivem com
um novo olhar para o futuro, potencialmente possível e alentador,
diferente das gerações passadas que nasciam e viviam conscientes da
tragédia do desaparecimento de seus povos. A reafirmação da identidade
não é apenas um detalhe na vida dos povos indígenas, mas sim
um momento profundo em suas histórias milenares e um monumento
de conquista e vitória que se introduz e marca a reviravolta na história
traçada pelos colonizadores europeus, isto é, uma revolução de fato na
própria história do Brasil.

sábado, 13 de abril de 2013



Identidade Indígena: o orgulho de ser índio
Extraído: Série Vias dos Saberes no 1

O reconhecimento da cidadania indígena brasileira e, conseqüentemente,
a valorização das culturas indígenas possibilitaram uma nova
consciência étnica dos povos indígenas do Brasil. Ser índio transformou-
se em sinônimo de orgulho indenitário. Ser índio passou de uma
generalidade social para uma expressão sociocultural importante do
país. Ser índio não está mais associado a um estágio de vida, mas à.
qualidade, à riqueza e à espiritualidade de vida. Ser tratado como
sujeito de direito na sociedade é um marco na história indígena brasileira,
propulsor de muitas conquistas políticas, culturais, econômicas
e sociais.
Os povos indígenas do Brasil vivem atualmente um momento especial
de sua história no período pós-colonização. Após 500 anos de massacre,
escravidão, dominação e repressão cultural, hoje respiram um
ar menos repressivo, o suficiente para que, de norte a sul do país, eles
possam reiniciar e retomar seus projetos sociais étnicos e identitários.
Culturas e tradições estão sendo resgatadas, revalorizadas e revividas.
Terras tradicionais estão sendo reivindicadas, desapropriadas ou reocupadas.
pelos verdadeiros donos originários. Línguas vêm sendo reaprendidas
e praticadas na aldeia, na escola e nas cidades. Rituais e cerimônias
tradicionais há muito tempo não praticados estão voltando a fazer
parte da vida cotidiana dos povos indígenas nas aldeias ou nas grandes
cidades brasileiras.
Isto é um retorno ao passado ou puro saudosismo? De modo algum.
Isto é identidade indígena e orgulho de ser índio. É ser o que se é, como
acontece com todas as sociedades humanas em condições normais de
vida. Passado um longo período institucionalizado de repressão (pois
ainda é forte no Brasil a repressão cultural não-institucionalizada, não oficial,
percebida, por exemplo, na implementação das políticas públicas
e no reconhecimento pleno dos direitos garantidos, como o direito
à terra, à educação e à saúde adequada), as novas gerações de jovens
indígenas parecem carentes de uma identidade que os identifique e lhes
garanta um espaço social e indenitário em um mundo cada vez mais
global e, ao mesmo tempo, profundamente segmentário no que diz respeito
à cultura, à ancestralidade, à origem étnica, a partir das quais os
direitos econômicos, sociais, culturais contemporâneos se articulam e
se fundamentam.
É notório o interesse das novas gerações indígenas, mais do que
aquele dos velhos anciãos, pela recuperação do valor e do significado da
identidade indígena, como afirmou um índio bororo certa vez: “É desejo
de todo índio entrar e fazer parte da modernidade e seu passaporte primordial
é a sua tradição”. Parece ser esta a razão principal da revalorização da identidade indígena. Entrar e fazer parte da modernidade não
significa abdicar de sua origem nem de suas tradições e modos de vida
próprios, mas de uma interação consciente com outras culturas que leve
à valorização de si mesmo. Para os jovens indígenas, não é possível viver
a modernidade sem uma referência identitária, já que permaneceria o
vazio interior diante da vida frenética aparentemente homogeneizadora
e globalizadora, mas na qual subjazem profundas contradições, como a
das identidades individuais e coletivas.
As gerações indígenas mais antigas parecem oferecer maior resistência
à reafirmação das identidades étnicas, em grande medida ainda influenciadas
pelas seqüelas do período colonial repressivo. E não é por
menos. Eles foram forçados a abdicar de suas culturas, tradições, de
seus valores e saberes porque eram considerados inferiores, satânicos e
bárbaros (ou seja, eram considerados como sinônimo de atraso, o que
os impedia de entrar no mundo civilizado, moderno e desenvolvido) e
para poderem se tornar gente civilizada, moderna e desenvolvida. Eles
foram obrigados a acreditar que a única saída possível para o futuro de
seus filhos era esquecer suas tradições e mergulhar no mundo não-indígena
sem olhar para trás. Mas mesmo assim, muitos velhos sábios e anciãos
indígenas estão superando esse trauma psicológico, e embarcando
no caminho que está sendo traçado e construído pelas gerações mais
jovens, onde prevalece a recuperação da auto-estima, da autonomia e
da dignidade histórica, tendo como base a reafirmação da identidade
étnica e do orgulho de ser índio.
É importante destacar que quando estamos falando de identidade
indígena não estamos dizendo que exista uma identidade indígena genérica
de fato, estamos falando de uma identidade política simbólica
que articula, visibiliza e acentua as identidades étnicas de fato, ou seja,
as que são específicas, como a identidade baniwa, a guarani, a terena,
a yanomami, e assim por diante. De fato não existe um índio genérico,
como já dissemos no início deste livro. Talvez exista no imaginário
popular, fruto do preconceito de que índio é tudo igual, servindo para
diminuir o valor e a riqueza da diversidade cultural dos povos nativos
e originários da América continental. Os povos indígenas são grupos
étnicos diversos e diferenciados, da mesma forma que os povos europeus
(alemão, italiano, francês, holandês) são diferentes entre si. Seria
ofensa dizer que o alemão é igual ao português, da mesma maneira que
é ofensa dizer que o povo Yanomami é igual ao Guarani.
Os povos indígenas, ao longo dos 500 anos de colonização, foram
obrigados, por força da repressão física e cultural, a reprimir e a negar
suas culturas e identidades como forma de sobrevivência diante da
sociedade colonial que lhes negava qualquer direito e possibilidade de
vida própria. Os índios não tinham escolha: ou eram exterminados
fisicamente ou deveriam ser extintos por força do chamado processo
forçado de integração e assimilação à sociedade nacional. Os índios
que sobrevivessem às guerras provocadas e aos massacres planejados e
executados deveriam compulsoriamente ser forçados a abdicar de seus
modos de vida para viverem iguais aos brancos. No fundo, era obrigá-
los a abandonarem suas terras, abrindo caminho para a expansão
das fronteiras agrícolas do país. O objetivo, portanto, não era tanto
cultural ou racial, mas sobretudo econômico, guiando toda a política
e as práticas adotadas pelos colonizadores. É este o ressentimento das
gerações indígenas mais antigas, ou mesmo das gerações mais novas
que ainda vivem sob essa repressão, como nas regiões Nordeste e Centro-
Oeste do Brasil.
A dinâmica e a intensidade da relação com a identidade variam de
povo para povo e de região para região, de acordo com o processo
histórico de contato vivido. Na Amazônia, por exemplo, onde o contato
com os colonizadores brancos aconteceu mais recentemente, muitos
povos indígenas continuam conservando integralmente suas culturas e
tradições, como a terra, a língua e os rituais das cerimônias. Para esses
povos, a prioridade é fortalecer a identidade e promover a valorização
e a continuidade de suas culturas, de suas tradições e de seus saberes.
Até pouco tempo pairava na cabeça de muitos brasileiros serem esses
os “verdadeiros índios”, porque falavam suas línguas, viviam nas selvas
nus e pintados e praticavam danças exóticas estranhas às danças
do mundo não-indígena. Atualmente, algumas poucas pessoas menos
informadas e esclarecidas ainda pensam assim, fruto da imagem pejorativa e preconceituosa de índio veiculada ao longo de séculos pela escola e pelos meios de comunicação de massa.
O Nordeste é uma região emblemática para que se entendam hoje os meandros do que foi o processo colonizador enfrentado pelos povos
indígenas. Por estar localizada ao longo do litoral brasileiro, a região
foi alvo primeiro da ocupação colonial pelos portugueses. Essa ocupação
violenta resultou em profundas perdas territoriais e na submissão,
por absoluta necessidade de sobrevivência, aos poderes econômicos
coloniais, marca dos diversos povos da região, como os Xucuru, os
Fulniô, os Cariri-Xocó, os Tuxá, os Aticum, os Tapeba, os Potiguara,
entre outros. As línguas nativas foram substituídas pelo português
e o modo de vida desses povos pouco se distingue dos camponeses
não-índios. As áreas que ocupam dificilmente possibilitam uma vida
autônoma de produção e reprodução de suas culturas, tradições e valores
para as quais necessitariam de um resgate e de uma reorganização
social. No entanto, a identidade indígena entre os povos da região
é marcada por rituais específicos, como as festas do Toré (dos Tuxá) e
o Uricuri (dos Fulniô), nos quais é proibida a presença de não-índios,
como marca da fronteira identitária étnica. Neste sentido, a identidade
indígena, negada e escondida historicamente como estratégia de
sobrevivência, é atualmente reafirmada e muitas vezes recriada por
esses povos.
O processo de reafirmação da identidade indígena e o sentimento
de orgulho de ser índio estão ajudando a recuperar gradativamente a
auto-estima indígena perdida ao longo dos anos de repressão colonizadora.
Os dois sentimentos caros aos povos indígenas estão possibilitando
a retomada de atitudes e de comportamentos mais positivos
entre eles, diante de um horizonte sociocultural mais promissor e esperançoso.
As atuais gerações indígenas nascem, crescem e vivem com
um novo olhar para o futuro, potencialmente possível e alentador,
diferente das gerações passadas que nasciam e viviam conscientes da
tragédia do desaparecimento de seus povos. A reafirmação da identidade
não é apenas um detalhe na vida dos povos indígenas, mas sim
um momento profundo em suas histórias milenares e um monumento
de conquista e vitória que se introduz e marca a reviravolta na história
traçada pelos colonizadores europeus, isto é, uma revolução de fato na
própria história do Brasil.